sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Filme do Dia - Die Welle(A Onda)

Fazia tempo que vinha adiando assistir esse filme, pois amigos recomendaram, professores da faculdade, livros sobre nazismo e totalitarismos em geral. Então depois de tanta pressão resolvi ver se prestava, baixei e vi. O que foi aquilo? O filme é muito bom, tanto no argumento, quanto na estruturação das cenas e a trilha, bixo que trilha. Primeiro ponto que me chamou a atenção foi o som, começa com Rock’n’roll High School e mostra um cara de jaquetão chegando na escola. Até aí pensei se tratar de um aluno repetente, mas era um professor de história(identificação imediata a partir daí), no desenrolar da trama a argumentação e os diálogos fáceis, mas bem estruturados, demonstram a simplicidade cruel que é o nazismo, ou qualquer outro regime totalitário. Pois é esse o tema debatido no filme: como seria fácil influenciar pessoas a aderirem facilmente a um regime total onde sua segurança está na mão da coletividade. O professor iria dar um curso de férias tratando dos regimes totalitários, como a turma começa reagindo mal ele decide por explorar de forma prática adotando os métodos desses regimes como experiência de sala de aula e incrivelmente os alunos aderem e daí as consequências vão se revelando mais intensas do que as esperadas pelo mestre a princípio.

Depois de assistir fui buscar mais informações sobre ele na internet e vi que se tratava de uma experiência real passada na Califórnia, mas transportada para a Alemanha na tela do cinema. Um professor norte americano, me escapa o nome dele agora, usou uma turma para provar ser possível resgatar regimes como nazismo, comunismo, facismo, através de simples mecanismos. Até hoje o danado do professor não pode mais lecionar, porque simplesmente provou a fragilidade do homem em discernir a gravidade de seus atos.


Recomendo assistir o filme, no áudio original de preferência, e depois baixar a trilha sonora para ouvir, tenho aqui a OST do filme e vale muito a pena, rock’n’roll da mais alta qualidade e um filme, visualmente e ideologicamente, do mais alto naipe.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cem Anos de Solidão

Você conhece Gabriel García Marques? Se sim, parabéns, é muito boa a literatura desse cabra. Trago hoje os Cem Anos de Solidão escrito por ele. Um livro fantástico, tanto na qualidade quando na narrativa, pois a história beira o absurdo em diversos momentos, em outros ultrapassa esses limites. Ele narra a história de uma família, de seu princípio ao seu fim e de como ela estava intrinsecamente ligada à história da cidade de Macondo, cenário onde se passa toda a trama. Teremos um Coronel Buendia, com todo seu existencialismo e seus filhos espalhados pelos quatro cantos do mundo, a velha matriarca da família que ninguém sabia exatamente a idade dela quando morreu. Teremos todo o amor do mundo, todo o ódio e todas as sensações capazes de mover os homens e mulheres soltos pelo mundo. Esse livro me prendeu do começo ao fim, é uma narrativa louca e apaixonante, vertiginosa, faz você torcer, se surpreender, amar, odiar. Poucos livros são capazes de provocar tanto, mas esse te leva a pensar muito sobre a solidão, sobre como construímos nossa história, quais nossas reais capacidades e até onde podemos ir para realizar nossos desejos.
O escritor ainda é vivo, mas não publica mais nada, até onde sei não há livro recente dele, pelo menos nos último cinco anos. Houve uma coletânea de discursos dele, mas acredito não contar como livro mesmo.

Se procura algo realmente bom para ler, onde o eixo narrativo seja a paixão que move uma família e todos os sentimentos motores do coração humano pegue este livro e vá fundo. Mergulhe na cidade de Macondo, seus tipos, sua história, sua vida. Conheça os Buendia como se fosse um parente seu, como se fosse você.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Culpa é Sua

De quem é a culpa pelo mundo estar como está? A culpa é sua. Sem isenção, sem meias verdades, sem desculpas. Se sua vida é assim, meia, incompleta, quase vida então a culpa é sua. Não adianta reclamar. Faça, aconteça, realize. Não há na vida segunda chance, retorno, alguém que lhe dê a mão para cometer o mesmo erro novamente. A vida é sem volta. Quer ser famoso? Pague o preço por isso. Quer ganhar um salário alto, assuma as imensas obrigações advindas desses rendimentos. Não há grande realização sem grande peso. Então se você não está onde quer, a culpa é sua, ninguém é responsável pela sua derrota além de você. Nem pela sua vitória, não há ajuda isenta de interesse, livre de pedidos de pagamento. Toda ação gera uma dívida, todo pedido de socorro gera um débito a ser pago como favor. Desconheço ser humano sem interesses. Esse é o nosso sistema, essa é nossa realidade. Até entre os amigos, familiares, sempre há algo pelo qual pagar, sempre haverá algo pendente.

Se você está parado no tempo, na vida, longe de sua imagem de vida perfeita é porque você não se dispôs a pagar o preço.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Beetlejuice e a cena independente

Foto: Marcelo Soares

Meu post de hoje sobre banda na verdade é sobre a que participo chamada Beetlejuice. Conseguimos chegar na final do Pré-AMP 2014, que se realizará dia 23 desse mês. É domingo. Esse festival é uma espécie de termômetro da cena independente de Recife e conseguimos chegar na final através do voto popular, algo que muito nos agrada, pois o povo escolhe aquilo que gosta. Parece que nosso rock’n’roll está conquistando o público roqueiro, e quem vai para um show nosso sente que há motivos muito fortes para isso. Estamos muito felizes por termos chegado até este ponto, de conseguir uma vaga na final valendo, como prêmio, tocar no fodástico carnaval de Recife, no Festival de Inverno de Garanhuns e ainda por cima gravar um CD num estúdio profissional com auxílio de produtor musical e tudo.

Estamos há oito anos na cena independente da cidade, com dois EPs na rua, e muitos shows nas costas, tocamos onde você puder imaginar para divulgar nosso som. O único cachê que rolou até hoje, em dinheiro, foi a venda de ingressos para o rock in rio que ganhamos através de voto popular num concurso. Tirando isso as demais ajudas foram almoço, fornecido em uma viagem para tocar em Alagoas, lá em Colônia Leopoldina através do Coletivo Ops Rock. Ganhamos também comida e bebida à vontade quando tocamos em Itamaracá, convidados nesse dia pelo Coletivo Reação Nativa. Também tivemos alguns prejuízos nessa estrada, como quando fomos convidados para um show em Itamaracá e não rolou, o produtor do evento lá sacaneou com a gente, mas isso fica para outra história. Ou quando íamos tocar no Casarão das Artes, mas desligaram o som antes e foi uma confusão arretada.

Foto: Luiz Vitorino
Circular na cena independente de Recife é uma aventura, pois tem todo tipo de gente, boas e ruins, bandas que lhe ajudam e outras lhe queimando, brothers e falsos amigos, você vai ver de tudo, mas o mais legal de tudo é o final disso: a música. Você ouve muita música, entra em contato com gente pensando música nas suas mais diversas nuances, nas mais extremas possibilidades. Vê shows totalmente fora dos padrões e se diverte. Então se puder ir aos shows das bandas independentes daqui de Recife, vá, porque é muito foda e com certeza irá esbarrar com algum show nosso.


Beetlejuice! Beetlejuice! Beetlejuice!



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Onde está a Educação?

Vemos o governo de Dilma estar com uma aprovação fantástica, boa parte da população está satisfeita com ela, não consigo entender exatamente o motivo, os índices de corrupção no país ainda estão semelhantes ao do tempo de Collor, agora com maior descaramento, Genoíno na Comissão de Justiça mesmo após ser condenado pelo mensalão, colocaram um palhaço na Comissão de Direitos Humanos para esquecermos das outras comissões com maior peso nas decisões políticas. Vejo também a inflação voltando com força total. Alguns podem argumentar o aumento do número de empregos formais, com carteira assinada, mas a maioria das pessoas estão ganhando apenas um salário mínimo e só. A educação não melhorou muito, vejo os índices apontando um maior número de universitários, construção de novas escolas, ampliação das verbas destinadas para as universidades federais e cursos técnicos de instituições públicas, mas frequentando os edifícios desses entes educacionais vejo um imenso sucateamento. A universidade federal daqui está sucateada, o melhor setor é o de informática e tecnologia, porque há um aporte de verbas privadas, os demais setores do campus estão jogados às baratas, onde estão as verbas destinadas? Não vejo. No ensino fundamental e médio as escolas sofrem bastante, tanto em sua estrutura física quanto humana, os alunos depredam o espaço de estudo e os professores dão aula assustados, pois não há segurança nem apoio da Secretaria de Educação, as comunidades do entorno das escolas geralmente são ambientes violentos e esse sentimento é generalizado. Portanto, onde está toda essa verba que o governo federal diz destinar para a ampliação da educação? É incrível o número de universitários que não sabem redigir uma redação sem cometer erros básicos de ortografia e gramática, é gritante a falta de capacidade de interpretar um texto básico, ou a preguiça de ler afetando a maioria de nossos estudantes. Se o governo quer apresentar apenas números ele consegue, mas são números muito distantes da realidade. Ampliou o acesso, mas reduziu a qualidade.



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Filme da Semana - Elvis & Anabelle

Acredito não ter dito anteriormente, mas romance definitivamente não é meu gênero de filme favorito, gosto muito daqueles filmes paradões, com uma história se desenvolvendo em roteiros bem amarrados, mas tive que me render para esse aqui, me interessei vendo o trailer dele em um filme que gosto, mas não lembro agora qual filme. No trailer você via um cara responsável por fazer o trabalho de maquiar os mortos e uma garota como modelo miss alguma coisa com uma paixão improvável nascendo daí. Beleza, é um mote bem batido, mas como gosto das coisas mórbidas me atrevi a assistir esse romance. O primeiro personagem a ser apresentado é Elvis, ele é filho único de um pai viúvo, o fato da morte da mãe dele debilitou bastante a saúde mental de seu pai restando a Elvis assumir o negócio da família, maquiar os mortos e deixá-los com rubor de saúde para o funeral. Parece ser um costume nos Estado Unidos fazer isso pois já vi em outros filmes. Anabelle é uma modelo que vem de uma série de vitórias nos concursos locais de miss, fica evidente ser o sonho da mãe dela esse futuro de modelo ao lado de figurões da política e do mundo da Vaidade. Os fatos que unem os dois são: a cidade onde moram é a mesma e um súbito ataque cardíaco de Anabelle em um concurso muito importante, ela é dada como morta e Elvis é contratado para fazer o trabalho mortuário. Porém ela não morreu. O filme não é espírita, se fosse ela teria um caso do além para o aquém. Até aí o roteiro é previsível, mas a forma como o romance acontece durante o resto do filme, a qualidade dos diálogos e as interpretações dos atores fazem a experiência de assistir valer. É um romance com diálogos nada gratuitos, as relações familiares são evidenciadas mostrando a importância delas nas escolhas dos sujeitos. Como romance me surpreendeu, pois não faz parte desses clichês de comédia romântica da coisa impossível, o roteiro é montado de forma a relação dos dois parecer plausível e os valores aplicados na construção dos sentimentos entre os personagens é algo raro de se encontrar nos filmes ditos românticos atualmente. Recomendo para pessoas que não gostam de romances abestalhados.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Neuromancer - Ficção de origem

Paixão pela ficção científica é facilmente explicável. Como não se encantar com a possibilidade de criações capazes de substituir membros, tornar um ser humano capaz de falar qualquer idioma, ou pilotar qualquer equipamento, como não desejar a possibilidade de teletransportar-se para qualquer lugar do universo? Tais sonhos, possíveis, me fazem ler as produções dessa área da literatura. Existem diversos autores de gabarito, tanto pela linguagem utilizada, quanto pela sua capacidade visionária em perceber o germe daquilo que hoje é nossa rotina. Neuromancer é o livro que traz o conceito de Matrix como o conhecemos hoje, a ideia de uma realidade não-física capaz de afetar o mundo concreto, algo como a internet. Nesse livro você verá implantes cibernéticos, conexões neurais direto na pele.  Modificações capazes de deixar os mais hardcores fãs de body modification no chinelo. Esse livro se passa num futuro hipertecnológico, cyber absurdo, com a trama oscilando entre o noir e o cyberpunk. Não é de se espantar que a trilogia Matrix é inspirada na trilogia de William Gisbon. O primeiro livro é esse citado aqui, depois vêm Count Zero e Mona Lisa Overdrive fechando o pacote da trilogia do Sprawl. Os personagens centro da trama em cada livro são diferentes uns dos outros, mas interconectados, como a realidade virtual que os cerca. Toda a trama gira em torno disso, como as duas realidades se afetam e até que ponto a tecnologia é capaz de interferir nas relações humanas. Foi um livro escrito em 1984 onde já nos encaminhávamos para o surgimento da internet e daquilo tudo advindo dela.
Recomendo como leitura por esses dois principais motivos: é um dos principais indicadores do pensamento originário da web e coloca nosso pensamento na linha do grande conflito do mundo contemporâneo: homem x máquinas. Faz-nos pensar se a relação realmente é de versus ou de cooperação.
Se forem adquirir comprem a edição da Aleph que fez recentemente um ótimo trabalho de tradução e edição, os livros são muito bem acabados e confortáveis para a vista.
es, como o próprio Michelangelo dizia, como Da Vinci comprovou em seus diversos estudos de anatomia. Todos os grandes artistas, quando falo de grande é gente responsável por captar o espírito das épocas, são intensos pesquisadores da natureza humana, do mundo, da “alma”, da realidade. Então se você ainda acredita em inspiração é por estar no primeiro estágio da iniciação artística, pois ao passar dessa visão romântica e infantil perceberá que apenas após um árduo trabalho de entrega, pesquisa, aprendizado, conhecimento e dedicação será capaz de realizar arte. Mas não acredito em arte também como pregam por aí, mas isso é papo para outro artigo.



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sopro Divino

Pietá - Michelangelo
A inspiração pressupõe algo divino na criação da obra de arte. Inspirar vem da ideia do sopro criador que entra, por isso inspiramos. Colocamos para dentro algo superior, algo divino, algo maior que todos nós, e a expiração é a arte, seja ela em forma de música, pintura, quadrinhos, teatro, dança, etc. É verdade isso? Será mesmo verdade? Bem, para quem acredita em inspiração sim, pois desde os gregos a inspiração tem essa conotação divina. Mas um bocado de mal informado e sem leitura histórica chama de inspiração aquele estalo, também chamado de insight, responsável por nos fazer ver o germe de uma obra de arte. Não acredito em inspiração, acredito no resultado de um processo longo de internalização, de construção de uma imagem, de um som, de uma ideia. O artista é basicamente aquele ser capaz de pegar todos os estímulos ao seu redor e transformá-los em algo novo dentro de uma linguagem (música, literatura, pintura, etc..) eleita por ele para se expressar. Portanto ele não tem inspiração, ele consegue é misturar tudo dentro de sua cabeça. Algumas misturas levam tempo para atingirem o ponto máximo, o melhor ponto de torra, como um bom café, mas outras são bem rápidas. O momento onde ocorre a inspiração, o estalo, é quando todos os ingredientes do bolo chegam a homogeneidade e ficam prontos para consumo, uso, degustação. Acreditar que uma força exterior do nada vem trazer a obra pronta é jogar muito com o acaso, e não há acaso capaz de me convencer que os grandes trabalhos de arte são fruto de nenhum estudo, de nenhuma capacidade técnica, mas apenas resultado de um lance de sorte. Atribuir à sorte resultados tão plenos quanto o riff de Voodo Child, ou as harmonias foderosas de Morphine ou Deftones é menosprezar o trabalho, e dedicação, de músicos altamente capacitados que se dedicaram muitas e muitas horas para colocar em registros sonoros aquelas melodias existentes dentro de suas cabeças. Portanto inspiração não existe, pois alguém que consegue perceber o momento exato de construir uma obra artística é aquele diariamente disposto a ver, ouvir, estudar e criar. Nenhum artista se faz do dia para a noite, nenhuma obra nasce pronta, ela primeiro passa por diversos ajustes, lapidações, como o próprio Michelangelo dizia, como Da Vinci comprovou em seus diversos estudos de anatomia. Todos os grandes artistas, quando falo de grande é gente responsável por captar o espírito das épocas, são intensos pesquisadores da natureza humana, do mundo, da “alma”, da realidade. Então se você ainda acredita em inspiração é por estar no primeiro estágio da iniciação artística, pois ao passar dessa visão romântica e infantil perceberá que apenas após um árduo trabalho de entrega, pesquisa, aprendizado, conhecimento e dedicação será capaz de realizar arte. Mas não acredito em arte também como pregam por aí, mas isso é papo para outro artigo.



terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Vida de banda

Participei de três bandas até hoje, a última foi, e é, a mais importante, por diversos motivos. Estamos agora retomando as atividades depois de um ano separados, por outros motivos também. Para quem quiser começar uma banda saiba que é um trabalho do cacete, se você pensa apenas em subir no palco e ver as pessoas gritando seu nome, ou de sua banda, pode parar de ilusão, não é assim tão simples. Primeiramente deve dedicar-se a aprender a tocar bem seu instrumento, para tirar dele o som que está dentro de sua cabeça. Acertar-se com seu equipamento de trabalho é fundamental. Trabalho? Sim parceiro, muito, sem parar. Depois de conseguir aprender a tocar bem, desenvolver sua técnica e capacidade, deverá se preocupar em achar os membros de sua empreitada. Devem estar na mesma intenção, na mesma sintonia, rolar aquela química, amizade mesmo. Rock é isso, uma amizade forte entre os membros da banda, conviver com as diferenças, discutir, farrar juntos, ouvir sons juntos e admirar essas coisas da músicas com pessoas semelhantes. Depois de encontrar os membros, aprender a tocar bem vem a parte mais difícil, organizar a vida da banda, nome, cartazes, marca, auto gestão dessa nova pessoa, fazer ela caminhar. Arranjar os contatos certos na área, se antenar com o cenário de sua cidade, o que acontece.
Quando a Beetlejuice acabou estávamos entrando na melhor de nossas fases, era o processo de divulgação do 2º EP, o Mais Uma Dose, todo mês tocávamos em algum lugar diferente, tínhamos vencido uma seletiva para tocar fora do Estado. Nos apresentamos duas vezes na Paraíba e uma em Alagoas, fizemos o melhor show da noite no Esporte do Mangue e íamos voltar para uma segunda apresentação em Alagoas, mas encerramos nossas atividades antes. Agora retomamos, com mais gás, mais maturidade, mais vontade de fazer certo dessa vez.
É difícil parceiro, mas é um prazer sem tamanho subir no palco e fazer o som, fazer a música, sentir as pessoas vibrarem com você.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Olha pra mim!

Cá estou eu senhor, sentado neste banco de praça esperando somente a hora de tu vir me buscar, pois meu peito está muito lento, sinto o coração fraquejando. É essa a hora não é senhor? Espero ter feito direitinho meu papel durante toda a vida. Pelas minhas lembranças dei esmola, tentei de todas as formas não ser injusto com ninguém, se fiz julgamentos precipitados errando minha decisão sobre alguém, me perdoe, pois não sou como o senhor que tudo sabe. Dei alimento a quem precisava, colaborei em ONGs e associações sem fins lucrativos, paguei meus impostos em dia para não dever aos homens também. Sempre fui à igreja senhor, nunca faltei nenhum dia, chegava atrasado, mas não deixava de ir. Sabe como sempre fui temente a sua palavra e a seus ensinamentos, segui tudo aquilo escrito em seu livro sagrado. Então senhor, quando vier me levar, se for nesta tarde, que não doa, pois dor no momento da libertação deve ser a pior última sensação.
Orando dessa forma o homem foi acalmando seu coração, suas veias de oitenta anos pararam de receber o sangue, já não bombeava mais nada o órgão. Faleceu sem dor, como pedido.
Fonte: http://olhares.uol.com.br/velho-sentado-num-banco-no-jardim-foto5220040.html
Crédito da imagem: Rui Correia

Abriu os olhos. Havia muita luz a sua volta, tudo era muito branco, cobriu a face com o antebraço tentando ver melhor com a sombra proporcionada.
Senhor? Ansiava o velho, está aí senhor? Obrigado por me trazer para seu lado, passar minha eternidade.
Quem disse que passará a eternidade a meu lado? Ecoou uma estrondosa e distante voz metálica, por acaso tentou comprar aqui sua entrada com aquela última ladainha seu velho desgraçado?
Mas senhor, não entendo por que dizes isso comigo, sempre fui tão fiel a tudo.
Fiel a tudo? Tua esposa? Quantas doenças não passaste para ela? E teus filhos? Condições miseráveis os deixaste. Se não me engano, velho filho da puta, não havia ninguém a seu lado na hora de sua morte, nem visitas recebias mais naquele pedaço de parede que chamavas de casa. Ainda queres me enganar dizendo ser um bom homem?
Mas senhor, não tenho culpa dessas coisas, minha esposa era uma adúltera também, com quantos homens ela não deitou? Será que não fui eu senhor quem contraiu aquelas doenças passando para minhas amantes? Vê senhor, eram meus filhos? Não se fazia DNA no meu tempo, como poderei amar criaturas que nem sei se são meus?
Isso não justifica, repetia a voz mais estridente ainda, mais alta, mais metálica, próximo de uma guitarra, você foi um miserável toda a sua vida e não alcançará redenção aqui ao meu lado. Vá e pague o que deves no inferno, se lá compreenderes o mal que fizeste irei repensar teu caso.
Um imenso tubo anelado de metal polido, brilhante, surgiu do alto sugando o velho, levando sua carne, sangue e ossos, tragando toda a alma do ancião para um lugar distante. A última visão do homem, antes de sumir dentro daquele tubo, foram imensas caixas de som com milhares de luzes equilibradas em pedestais. Não entendeu nada daquilo.

As luzes se apagaram, ficando apenas um ponto claro ao fundo de tudo. Dois homens sentados conversavam: Você acha que ele engoliu a conversa com deus? – Não sei, mas está cada dia mais difícil enganar, lembra daquele último que mesmo correndo o risco da cegueira descobriu os olhos e viu essa parafernália toda? Porra, quase não dava pra conter ele, ficou histérico o desgraçado. – Ah, mas também vê o que ele ouve na terra, quantas religiões não tem por lá? Quem iria acreditar que depois da morte a gente traz para o hiperespaço a consciência existente dentro deles? Nunca iriam acreditar na inexistência da alma, seria impossível depois de tantos séculos de crendices e sem tecnologia igual a nossa. – Mas aquele cara alertou a eles, escreveu até um livro dizendo que os deuses erámos nós! As visitas de nossas naves nos céus da terra, não é o suficiente para acreditarem? – Eles ainda não alcançaram nosso grau de conhecimento, enquanto não chegar esse dia teremos que continuar a usar essas luzes fortes, esse sistema de som e tudo o mais necessário para encaixar cada descrição de deus com cada religião que existe lá embaixo. – A gente podia usar um sistema de hologramas e leitura de mentes para deixar mais aproximado ainda do conceito de cada figura que aparece. – A gente senta com os outros encarregados de recepção de consciência depois do expediente de hoje e decide. – Ah, depois do expediente um cacete, hoje eu vou sair com Ahoisahjoidhasoidaa, não tem condições de reunião, deixa pra outro dia. – Cabra bom hein! Conseguiu levar ela. – Mulher é mulher, não dá pra ficar sem né?